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O debate que debateu a si mesmo

há 11 minutos
4 min de leitura

Marco Túlio da Silva*

 

Habermas, se estivesse vivo, morando no Brasil de 2026, provavelmente pediria um café, olharia para o celular e ficaria perplexo. Ele passou décadas estudando esfera pública, racionalidade comunicativa, democracia deliberativa e os mecanismos pelos quais uma sociedade transforma conversa em formação legítima da vontade política. Aí chega o Brasil de 2026 e quer resolver tudo em quarenta minutos, ou não resolver nada.

TV Globo cancela debate, Reprodução G1


É que faltando quarenta minutos para o debate presidencial da principal emissora de televisão aberta do país, o debate se desfez. Não foi cancelado apenas um programa de televisão. Foi cancelado o debate e iniciado o debate sobre o debate. O país já não discute quem vai governar, discute quem pode perguntar e como.

A teoria dizia que a democracia precisa de espaços nos quais diferentes posições possam se confrontar por meio da argumentação pública, mas estamos mesmo interessados em democracia?


Todo mundo diz estar defendendo a democracia, será? A emissora afirma defender a liberdade de imprensa. O Judiciário afirma defender o estado democrático de direito. Os candidatos afirmam defender o eleitor. E o eleitor, às vésperas das eleições, passa a debater o debate, ou a falta dele.


É aí que Raymundo Faoro aparece na esquina para conversar com Sérgio Buarque de Holanda, que comenta que nossa dificuldade não é apenas institucional, ela é cultural, temos uma habilidade impressionante de transformar tudo em relações privadas e pessoais. Decisões do STF passam a ser "decisão daquele ministro". A emissora deixa de ser uma empresa e vira "a Globo do fulano". O Estado ganha CPF, e quando o Estado ganha CPF, a democracia e o debate público começam a parecer briga de família.


Jessé Souza provavelmente pediria cautela antes de aceitar a explicação tipo: "É o Brasil." Essa frase é maravilhosa porque encerra qualquer análise reflexiva. O Brasil é um sistema vivo, uma sociedade complexa, atravessada por desigualdades, disputas de poder, instituições, mercados, elites, classes sociais, meios de comunicação e diferentes formas de acesso à esfera pública.


E é exatamente aí que Muniz Sodré ajuda a complicar a história, com sua abordagem da mídia como ambiente existencial, que molda a nossa percepção e as relações sociais porque mídia (TV ou Podcast) não é janela aberta, apenas para mostrar o mundo de forma isenta. Mídia é também arquitetura, que organiza a visibilidade do mundo, segundo interesses, inclusive os seus. Cabe a cada um a análise reflexiva sobre o que é veiculado.


Enquanto o Podcast acontece, um editorial também tem sua narrativa, e a narrativa de um e outro produz realidade política. Política que a maioria já esqueceu do que se trata. E não estou me referindo a partidos e, sim, a política em sua concepção clássica.


Aqui vale chamar Habermas para o diálogo. A esfera pública deveria ser o lugar em que argumentos, ideias e propostas se encontram para divergir e convergir, com formação da opinião e da vontade por meio de comunicação pública em condições de participação e argumentação. As mensagens deveriam ser mais importantes que os mensageiros, liberdade para falar, ouvir e ser ouvido.


A questão é que, às vezes, o microfone possui mais audiência que o argumento, um detalhe desconfortável. No final, aquela pergunta clássica: quem ganhou com a falta de debate? Talvez a própria mídia, pois não houve debate, mas todo mundo conseguiu falar sobre o debate que não houve. O debate virou conteúdo, e o que mais deveria importar no momento (ideias e propostas de governo), ninguém nem comenta.


Em meio a isso, Bauman diria “eu avisei”, Habermas provavelmente choraria, Faoro procuraria a chave, Sérgio Buarque pediria para não levar tudo para o lado pessoal, Jessé Souza perguntaria quem está sendo estruturalmente excluído dessa conversa e Muniz Sodré talvez lembrasse que no mundo contemporâneo, disputar o poder é também disputar os meios pelos quais a sociedade enxerga o poder.


No fim da noite de ontem, restou uma imagem impactante para o Brasil de 2026: o vazio, que vai do púlpito às ideias e propostas.


O mais curioso é que todos dizem estar defendendo o eleitor, e boa parte dos eleitores parece querer assistir uma briga. Mas e a política? O problema não é escolher “lutador ou político”, mas uma política reduzida ao espetáculo da disputa. Talvez essa seja a verdadeira crise da nossa esfera pública: não estamos ficando sem voz. Estamos ficando sem reflexão crítica, com propósito desfocado, o que flerta com a distopia.


E isso, para uma democracia, é bem ruim. Porque, em país onde todo mundo grita, pode ser barulhento. País onde ninguém escuta consegue transformar até o silêncio em guerra. E a verdadeira guerra, da desigualdade e da pouca solidariedade, dói no âmago de cada brasileiro e brasileira que dependem das políticas públicas.

E uma dor assim pungente, não há de ser inútil.


Precisamos travar uma conversa silenciosa com nossa consciência, o que não exige “uma inteligência altamente desenvolvida nem uma grande sofisticação em questões morais, mas, antes, a disposição de conviver explicitamente consigo mesmo, de manter uma relação consigo mesmo”, como escreveu Hannah Arendt.

O futuro do Brasil e de Minas depende de cada um de nós, e o momento é agora.

Que a reflexão crítica brote em meio a tudo isso.

Domingo, teremos eleições!

(*) Vice-presidente da Associação dos Funcionários Fiscais de Minas Gerais

 

 
 
 

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