Bolsonaro ataca Globo para ofuscar fracasso na pandemia e ligação de sua mulher com Queiroz

Muita gente viu mudança de postura do presidente Bolsonaro após o anúncio da marca trágica de100 mil mortes pela Covid-19, reforçada pela omissão do governo dele. Nos três países mais afetados do mundo, em dois deles, Brasil e EUA, a tragédia ganhou espaço no descompromisso e negacionismo de seus governantes. Para não haver dúvidas, chamam-se Jair Bolsonaro e Donald Trump. A aproximação de ambos só reforça, em grave situação, a mania de alguns maus brasileiros em copiar os piores modelos norte-americanos.

Sem máscara, Bolsonaro visita ponte dos Barreiros, em São Vicente (SP), foto Isac Nóbreba/PR/ABR

Nos dias que seguiram à triste marca, Bolsonaro mostrou que continua sendo o que é. E como é e como age quando confrontado? Escolhe um adversário e vai ao ataque para esconder seus problemas, falhas, incapacidade e maldades. Quem foi o alvo dessa vez? A Rede Globo, que, um dia antes, o responsabilizou, via Jornal Nacional, pelo descontrolado morticínio. Quais problemas Bolsonaro queria esconder? Dois para ser mais exato no momento.

Tragédia versus incapacidade

O primeiro é o fracasso de seu governo diante desse desafio sanitário que lhe bateu à porta e de todo o planeta. Uma pandemia do novo coronavírus que varreu o mundo levando medo, desemprego e mortes quanto maior for a incapacidade de quem a enfrenta. O segundo problema é o que expôs, pela segunda vez, a primeira-dama como beneficiária do esquema das rachadinhas do Queiroz. O Fabrício, que foi assessor de Flávio Bolsonaro, filho e senador, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro.

De acordo com revelação feita pela revista Crusoé e pela Folha de S. Paulo, Michelle Bolsonaro recebeu até R$ 89 mil de depósitos generosos do amigão Fabrício Queiroz. Foram 27 depósitos feitos pelo ex-assessor e sua própria mulher, entre 2011 e 2016, por meio de cheques para a primeira-dama.

O que diz Bolsonaro sobre tudo isso, que já é muita coisa. Sobre a mulher, nada disse, um pesado silêncio foi a resposta dele e do Planalto ao questionamento. No segundo caso, saiu soltando farpas contra a Rede Globo, que o acusou pelas 100 mil mortes por Covid-19. Não ofereceu respostas, apenas argumentos, sem provas e sustentabilidade, para seus seguidores manterem a cega defesa.

Fake News como argumento

Segundo Bolsonaro, a desinformação, que seria comandada pela TV Globo, a maior rede do país, mata mais até que o próprio vírus. Ainda recorreu ao tempo e à ciência como justificativa para suas posições. Juntando as duas, lembra até o dito repetido por um ex-presidente, em 1992, antes do impeachment: “O tempo é o senhor da razão”.

Ele voltou a defender ações do governo federal tomadas durante a pandemia, criticou o isolamento social radical (‘lockdown’) e acusou falsamente a rede Globo de ter “festejado” no sábado (8) a marca simbólica de vítimas da Covid-19.

Como os EUA, o Brasil é hoje um dos epicentros da transmissão do vírus no mundo, superando os 3 milhões de casos registrados. Em uma mensagem no Facebook, Bolsonaro republicou uma reportagem do jornal britânico Daily Mail que cita números oficiais para argumentar que o ‘lockdown’ —confinamento radical aplicado naquele país— matou duas pessoas para cada três que morreram de Covid, entre 23 de março e 1º de maio.

Segundo a publicação, 16 mil britânicos morreram no período por não terem tido acesso a serviços de saúde, enquanto a Covid-19 matou 25 mil pessoas no mesmo intervalo. “Conclui-se que o ‘lockdown’ matou duas pessoas para cada três de Covid no Reino Unido. No Brasil, mesmo ainda sem dados oficiais, os números não seriam muito diferentes”, escreveu Bolsonaro, que desde o início da crise se colocou como crítico de medidas restritivas no combate ao coronavírus.

Negação e aglomeração

Mais do que negar, Bolsonaro minimizou os impactos da pandemia, provocou aglomerações, na maioria das vezes sem máscara de proteção facial. “Quanto à pandemia, não faltaram recursos, equipamentos e medicamentos para estados e municípios. Não se tem notícias, ou seriam raras, de filas em hospitais por falta de leitos UTIs [Unidades de Terapia Intensiva] ou respiradores”, disse ele, ainda, na mesma mensagem no Facebook.

Ainda em seu ataque à rede de TV, acusou-a de desdenhar, debochar e desestimular o uso da hidroxicloroquina. “Mesmo não tendo ainda comprovação científica, salvou a minha vida e, como relatos, a de milhares de brasileiros”, escreveu ele. No mês passado, o presidente comunicou que havia sido infectado pelo vírus, mas que teria se curado.

Afirmou também que a Rede Globo “festejou” o marco dos 100 mil mortos na edição do Jornal Nacional de sábado, o que não é verdade. “De forma covarde e desrespeitosa aos 100 mil brasileiros mortos, essa TV festejou essa data no dia de ontem, como uma verdadeira final da Copa do Mundo, culpando o presidente da República por todos os óbitos”, afirmou.

Tempo e razão no futuro

Em editorial lido no jornal, os jornalistas William Bonner e Renata Vasconcellos destacaram que o direito à saúde é previsto na Constituição. E que, mesmo em meio à pandemia, o país permanece sem um ministro da Saúde titular. No futuro, o tempo e a razão vão contar quem colaborou e por que o impeachment dele não anda.

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