Cinco entidades contestam secretário da Fazenda de Minas e cobram retratação

18.05.2020

Cinco entidades dos servidores fazendários mineiros assinaram nota conjunta, repudiando críticas e ironias do secretário da Fazenda, Gustavo Barbosa, à atuação dos servidores da pasta. Na entrevista que concedeu na sexta (15), Barbosa deixou o lado técnico para não responder a uma pergunta sobre sua própria avaliação do desempenho da receita de abril. Em vez de se deter sobre os números, ou reconhecer que o desempenho foi melhor do que o previsto, passou a desqualificar os servidores que dirige.

 

“A Secretaria da Fazenda não treinou suficientemente os seus servidores”, segundo o secretário, para entenderem o fluxo de caixa. Sua resposta foi entendida pelos servidores como questionar e desqualificar a competência e o capital intelectual dos servidores fazendários.

Ao lado de Zema e de secretários, Gustavo Barbosa concede entrevista, foto Pedro Gontijo/ Imprensa MG

 

Assinam a nota de repúdio, o Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de Minas Gerais (Sindifisco-MG), a Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Minas Gerais (Affemg). E mais, o Sindicato dos Servidores da Tributação, Fiscalização e Arrecadação do Estado de Minas Gerais (Sinfazfisco-MG), a Associação dos Exatores do Estado de Minas Gerais (Asseminas). As outras duas entidades são o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público do Estado de Minas Gerais (Sindipúblicos-MG).

 

“Não entendem visão da despesa”


De acordo com a nota, o secretário introduziu o conceito de fluxo de caixa, incluindo o tema despesa para afirmar que os servidores da receita têm a visão somente da receita. “Não têm (os servidores) a visão da despesa … quando a pessoa fala que tem receita, ela tem que entender que o fluxo de caixa tem receita e despesa. Talvez, eu tenha que voltá-los pra entender um pouco mais isso. Aí é falha da Secretaria de Fazenda, que não treinou direito seus servidores no sentido de entender como funciona o caixa, tem receita e despesa”, disse.

 

Além do tom irônico, segundo as entidades, ele colocou em dúvida o conhecimento e a formação, “enfim, o capital intelectual dos servidores fazendários”.  Junto do estranhamento e do repúdio, os dirigentes sindicais e associativos fizeram várias perguntas na nota divulgada. “Naturalmente, isso (melhoria da receita) deveria ser motivo de orgulho para o titular da pasta, mas por que não em Minas? Ou haveria outros propósitos que justificariam a omissão de fato tão relevante naquela entrevista convocada especialmente para tratar da situação financeira do Estado? A quem interessaria pintar um quadro de caos?”

 

BID: melhor administração tributária do país


Para as entidades, tal manifestação do titular da SEF/MG causa maior perplexidade quando se constata os resultados da pasta nesses 16 meses sob seu comando. Segundo elas, em 2019, contrariando todas as expectativas, inclusive do próprio governo, por conta da grave crise econômica, Minas apresentou o 2º melhor desempenho de arrecadação.

 

“Foram R$ 2 bilhões a mais do que o previsto no orçamento, um resultado inquestionável que só pode ser atribuído à dedicação, ao trabalho e ao engajamento da equipe. Em 2018, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apontou a Secretaria da Fazenda de Minas como “a melhor Administração Tributária do país””, observaram as entidades. Acrescentaram que, quando foi divulgado o resultado da pesquisa, no ano seguinte, Barbosa fez efusivos elogios aos servidores em vários eventos públicos.

 

“Esses fatos recentíssimos, e apenas citados como exemplo, tornam a manifestação do sr. secretário Gustavo Barbosa ainda mais incompreensível”, assinalaram. As entidades cobraram ainda uma retratação do secretário. A Secretaria da Fazenda não se manifestou sobre o episódio, e o espaço está aberto para sua versão.

 

Nota de repúdio, na íntegra, ao secretário da Fazenda


Em face da manifestação do Sr. Secretário de Fazenda, Gustavo Barbosa, durante entrevista coletiva ocorrida na sexta-feira, 15, transmitida pela Rede Minas quando, ao ser questionado sobre o desempenho da receita, comentou com inaceitável e injustificada ironia que a “Secretaria da Fazenda não treinou suficientemente os seus servidores” para entenderem o fluxo de caixa do Estado, colocando em dúvida a competência e o capital intelectual dos servidores fazendários, as entidades Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de Minas Gerais – SINDIFISCO-MG, Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Minas Gerais – AFFEMG, Sindicato dos Servidores da Tributação, Fiscalização e Arrecadação do Estado de Minas Gerais – SINFAZFISCO-MG, Associação dos Exatores do Estado de Minas Gerais – ASSEMINAS e Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público do Estado de Minas Gerais – SINDIPÚBLICOS-MG vêm manifestar o mais veemente repúdio às declarações do Secretário, ao tempo em que esperam do titular da SEF/MG a justa retratação.

 

A pergunta formulada pela repórter ao secretário – “a queda na arrecadação foi inferior ao previsto anteriormente, R$ 2,2 bilhões de reais?” – se referia à receita de abril. Ao respondê-la, demonstrando que havia compreendido claramente a pergunta, o Sr. Secretário afirmou que “a receita de janeiro, fevereiro e março foi a maior de todos os tempos”. Em seguida, na mesma resposta, quando passou a se referir ao mês de abril, em vez de admitir que a queda da receita não foi tão expressiva como se pensava, mudou o rumo da resposta introduzindo o conceito de fluxo de caixa, incluindo o tema despesa para, então, afirmar que “os servidores da receita têm a visão somente da receita, não têm a visão da despesa … quando a pessoa fala que tem receita, ela tem que entender que o fluxo de caixa tem receita e despesa, talvez eu tenha que voltá-los pra entender um pouco mais isso, aí é falha da Secretaria de Fazenda, que não treinou direito seus servidores no sentido de entender como funciona o caixa, tem receita e despesa” disse em tom irônico, colocando em dúvida o conhecimento e a formação, enfim, o capital intelectual dos servidores fazendários.

 

Ao ser questionado sobre um indicativo de superação da previsão de arrecadação no mês de maio em centenas de milhões de reais, podendo até superar em um bilhão o valor inicialmente previsto (fato inegável), o Secretário da Fazenda passou a atacar os servidores da pasta que dirige. Naturalmente, isso deveria ser motivo de orgulho para o titular da pasta, mas por que não em Minas? Ou haveria outros propósitos que justificariam a omissão de fato tão relevante naquela entrevista coletiva convocada especialmente para tratar da situação financeira do Estado? A quem interessaria pintar um quadro de caos?

 

Para as entidades, tal manifestação do titular da SEF/MG causa maior perplexidade quando se constata os resultados da pasta nesses 16 meses sob seu comando. Em 2019, contrariando todas as expectativas, inclusive do próprio governo (que refez o orçamento para estimar um déficit maior que o deixado pelo governo Pimentel), apesar da grave crise econômica que assola o país com reflexos diretos sobre o consumo, portanto sobre o ICMS, e da abusiva defasagem do quadro de pessoal (o último concurso aconteceu em 2005), destaca-se que, no cenário nacional, Minas apresentou o segundo melhor desempenho de arrecadação.

 

Foram 2 bilhões de reais a mais do que o previsto no orçamento, um resultado inquestionável que só pode ser atribuído à dedicação, ao trabalho e ao engajamento da equipe. Em 2018, o Banco Interamericano de Desenvolvimento iniciou a mais abrangente pesquisa já realizada no país sobre as Administrações Tributárias Estaduais. Coube ao atual Secretário receber o resultado desse trabalho feito pelo Organismo Internacional, que apontou a Secretaria da Fazenda de Minas como “a melhor Administração Tributária do país”, o que ensejou efusivos elogios do próprio titular da pasta em vários eventos públicos. Esses fatos recentíssimos, e apenas citados como exemplo, tornam a manifestação do Sr. Secretário Gustavo Barbosa ainda mais incompreensível.

 

A tradição de responsabilidade, austeridade e accountability do Fisco de Minas é reconhecida nacionalmente. Contudo, não obstante a importância do ponto de vista motivacional, não são rankings de desempenho em pesquisas ou elogios que determinam o compromisso com a coisa pública, a dedicação e o profissionalismo dos servidores fazendários que, em mais de um século de história, tomaram para si, como própria, a cultura institucional da SEF/MG inscrita na sua missão, “prover e gerir os recursos do Estado para garantir o desenvolvimento econômico e a justiça fiscal em benefício da sociedade mineira”.

 

O SINDIFISCO-MG, AFFEMG, SINFAZFISCO-MG, ASSEMINAS e SINDPÚBLICOS-MG, entidades que representam o conjunto dos servidores da SEF/MG, não aceitam a injusta manifestação do Sr. Secretário Gustavo Barbosa, agravada ainda mais pela cáustica ironia, e esperam a devida retratação. 

 

Secretário da Fazenda se retrata de crítica a servidor

 

Cinco dias após tecer críticas, em tom irônico, o secretário da Fazenda de Minas, Gustavo Barbosa, divulgou nota aos servidores de sua pasta para pedir desculpas. Confira a nota abaixo:

 

Dirijo-me aos servidores fazendários com o propósito de esclarecer um trecho da minha fala durante entrevista coletiva concedida na última sexta-feira, 15 de maio.

 

No contexto da abordagem sobre a difícil situação das finanças de Minas Gerais, o objetivo era mostrar que o fluxo de caixa do Estado encontra-se deficitário, apesar dos excelentes resultados obtidos pela Receita. Estou convicto de que esta realidade é de conhecimento pleno de todos os servidores fazendários, independentemente da área em que atuam, pela sólida formação técnica que possuem e pelo alto nível de comprometimento com a instituição.

 

Desculpo-me, assim, pelo que disse e reconheço que posso ter causado insatisfação aos servidores fazendários, em especial aos da Receita Estadual.

 

Ressalto ainda que o trabalho de todos os servidores da Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais, reconhecida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento por possuir a melhor administração tributária do Brasil, será imprescindível tanto na transposição do difícil momento pelo qual passa o Estado quanto na urgente retomada econômico-financeira tão necessária aos mineiros.

Atenciosamente,

 

Gustavo Barbosa

Secretário de Estado de Fazenda de Minas Gerais

 

 

 

 

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