Bolsonaros põem ‘bode na sala’ toda vez que o fogo chega perto

02.11.2019

Cercado de seguranças, Bolsonaro acena para populares em Ceilândia (DF), foto Antonio Cruz/ABR

 

É uma tática manjada. O que impressiona é que tem dado certo no governo de Jair Bolsonaro (PSL ainda). Toda vez que uma grave crise (real), tenta cercá-lo, o presidente, ou um de seus filhos, inventa uma outra (artificial) para abafar a anterior. Além de manjada, a estratégia é conhecida como “colocar o bode na sala”.

 

É uma metáfora antiga e seria mais ou menos como a seguir. Conta a lenda que o marido estava sendo cobrado pela mulher para trocar móveis, geladeira, as cortinas, enfim, gastar e investir na casa. Sem condições de atender, o que faz o marido? Comprou um bode e o levou pra dentro de casa para espanto da mulher.

 

O espanto e a indignação dela vão crescendo à medida que o bode vai aprontando dentro da casa, quebrando e sujando tudo. Chega a um ponto em que a mulher, no auge do estresse, reage: olha, marido, tira esse bode daqui. Se ele não sair, eu saio. Pronto, o marido tira o bode e a mulher se sente atendida e fortalecida. A paz possível volta ao lar sem as pressões e cobranças anteriores.

 

Lenda antiga usada na política
 

É uma história velha e machista, que foi transplantada com êxito para a política. Quer ver? Vamos pela ordem dos fatos apenas deste semana. No dia 27 passado, o jornal O Globo divulgou os áudios do ex-assessor Fabrício Queiroz revelando o modus operandi do negócio da ‘rachadinha’. Esse é o nome do rendoso esquema de contratar assessores e cobrar mesada deles por isso.

 

Depois, a fatura é rachada entre os autores e patrocinadores do esquema. Queiroz movimentou R$ 7 milhões em três anos (noticiário de 20 de janeiro deste ano dos principais jornais e outros veículos). Onde ele atuava? Trabalhou nos gabinetes dos filhos do presidente Bolsonaro, o último foi Flávio, ex-deputado estadual do Rio, até dezembro passado; hoje, é senador.

 

As hienas do presidente


Ato contínuo, o que fez o presidente? Um dia depois, no dia 28, postou vídeo criticando partidos, imprensa e o Supremo Tribunal Federal (STF), comparando-os hienas contra ele (leão conservador). No dia seguinte, virou manchetes de jornais e motivo de notas de repúdio e em defesa do estado de direito. Após a forte reação, Bolsonaro pediu desculpas e disse, “humildemente”, que erra de vez em quando. Caso fica encerrado e o Queiroz desapareceu de novo.

 

Entre várias críticas, a do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, foi a mais assertiva. Afirmou, no dia 29, que o vídeo pode ser encarado como uma “cortina de fumaça” para desviar o foco das revelações dos áudios do ex-assessor. “Eu tenho que nada surge sem uma causa. Qual seria a causa? Qual é o descontentamento com o Supremo? (…) Agora, é uma coincidência muito grande que esse foco surja justamente numa hora em que aparece essas coisas envolvendo o assessor Queiroz”, afirmou à Rádio CBN.

 

Mais um defensor da ditadura e suas armas


Ainda no dia 29, o Jornal Nacional, da TV Globo, divulgou o depoimento de porteiro fazendo ligações perigosas e diretas dos Bolsonaros com o matador da vereadora Marielle Franco (PSOL). No dia 30, é divulgada entrevista do Bolsonaro mais novo defendendo a reedição do AI-5, o golpe mais violento e arbitrário usado pela ditadura militar brasileira no final de 1968. Mais violento vírgula, porque não há violência maior do que a própria ditadura. Um regime fechado, com prisões, torturas, desaparecimentos, exílios e mortes de quem pensa diferente.

 

Simultaneamente, saem manchetes na maioria dos jornais refletindo a perplexidade e a indignação pelas declarações. Junto delas, veio o “singelo” pedido de desculpas pelo mau jeito e molecagem. O caso Marielle acabou caindo para segundo plano.

 

Mirem o exemplo do Chile


O que pensam os Bolsonaros não é segredo para ninguém, mas somente as vivandeiras da crise ficam salientes para sonhar em fechar o Congresso e o STF. Que o Chile seja exemplo para esquerda, como forma de reagir, e à direita, para entender que não haverá retrocesso ignóbil. Democracia volver!

 

Mandar sozinho é fácil, como faz Bolsonaro; difícil é ser democrata

 

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