Encontro empresarial ataca privilégios e põe fogo na sucessão eleitoral

Além de abrir a disputa eleitoral deste ano para presidente e governador, os debates da 9ª edição do Conexão Empresarial, desta quinta (15), em Tiradentes (Campos das Vertentes), expuseram privilégios da área pública e colocaram fogo na modorrenta pré-campanha. Por meio de uma provocação e um desabafo indignado, o fundador da Localiza, Salim Mattar, diante de uma audiência marcadamente empresarial, ligou sua metralhadora giratória contra tudo e todos, até mesmo para a campainha que o avisava, repetidas vezes, do fim de sua exposição.

A reação da plateia, que chegou a aplaudi-lo de pé, o animou a prosseguir no pito que deixou alguns políticos presentes de cabeça baixa. Mattar generalizou em seus ataques, sem poupar a Constituição da República, que, segundo ele é “socialista e não cidadã”, governos, o Judiciário e, principalmente, os políticos. Reafirmou o que diz, há 13 anos, a investidores. “Quero ficar longe do governo. O governo me tira o sono. O governo deveria existir para servir a sociedade, mas ele se serve da sociedade. Nós precisamos mudar esse estado de coisas, porque estamos reféns de um grupelho de pessoas. Temos que mudar isso, porque haverá eleições daqui a pouco e é momento de fazer reflexão. Quero provocá-los, externando minha indignação, porque não tenho plano B. Não vou sair do Brasil”, avisou ele, antes de desfiar um rosário de privilégios e mordomias dos políticos, do Supremo Tribunal Federal e do funcionalismo público.

Não recorreu às denúncias de corrupção fartamente expostas pela Operação Lava Jato, mas pôs em xeque os privilégios do que chamou de ‘casta’ de servidores públicos. Em outro rompante, chegou a dizer que “tenho vergonha desse país que estamos construindo”. Liberal como empresário que é, Mattar tem o discurso afinado com o receituário do Partido do Novo, onde chegou a cogitar uma candidatura a governador, mas desistiu. Outro empresário, Marcio Cadar, do grupo MBK, que o sucedeu na tribuna, disse que, após a indignada fala, nada havia mais para falar, mas faltou perguntar a Mattar por que, com tal veemência e diante da grave realidade, não assumia uma candidatura a partir do manifesto apresentado.

As críticas dele acabaram por contaminar a audiência e pautar as exposições dos presidenciáveis e pretendentes ao governo mineiro. Coube ao pré-candidato ao Senado, deputado federal Miguel Correia (PT), e ao pré-candidato a governador, senador Antonio Anastasia (PSDB), fazerem o contraponto em defesa da política pública, do estado eficiente e dos servidores públicos.

Miguel Correia chegou a trocar o tema de seu painel (tecnologia) para rebater Salim Mattar e até exibiu cópia do próprio contracheque pelo celular para contestar o recebimento de privilégios denunciados. “Tenho 16 anos de vida pública e não tenho nenhum inquérito”, abriu sua fala, igualmente em tom de desabafo, recebeu algumas vaias, mas disse que não abriria mão de suas convicções. “Defendo o desenvolvimento econômico. Não sou partido. Sou brasileiro, não me julgue pela minha casa, mas pelo que sou”.

Anastasia comparou situações da iniciativa privada e do serviço público, pontuando a necessidade de valorização da carreira e das políticas públicas. “Dou-lhe razão em sua indignação, caro Salim Mattar, mas há alguns equívocos. Não podemos imaginar uma sociedade desenvolvida sem o estado, evidente, um estado eficiente. O estado não pode funcionar sem certas garantias aos servidores. Não se pode ignorar também a vocação pública”, apontou. Sem uma resposta direta, os outros pré-candidatos redirecionaram suas manifestações na mesma direção.

Participaram do encontro empresarial, os pré-candidatos a governador, além de Anastasia, Marcio Lacerda (PSB), Romeu Zema (Partido Novo) e Rodrigo Pacheco (DEM), e os presidenciáveis, Ciro Gomes (PDT), Paulo Rabello de Castro (PSC) e João Amoedo (Partido Novo). O próximo encontro dos pré-candidatos será no 35º Congresso Mineiros dos Municípios, a ser realizado, em Belo Horizonte (Mineirão), pela Associação Mineira dos Municípios (AMM), nos dias 19 e 20 deste mês.

A 9ª Conexão Empresarial é uma promoção do grupo VB Comunicação, foi aberta na quinta (14), na histórica Tiradentes, e será encerrada neste domingo (17), depois de reunir 500 pessoas, entre elas representantes do poder público e privado. O colunista do BHAZ participou do evento a convite dos organizadores.

Veja um pouco do que disseram os pré-candidatos:

“É um Estado de caos, em Minas e no Brasil. Não quero estabelecer culpados, mas quem tem mais parcela de culpa é aquele que assume sem planejamento e fica olhando para o passado”

Pré-candidato a governador pelo DEM, deputado federal Rodrigo Pacheco

“Minas Gerais precisa ter um dinamismo maior em sua economia e o governo não pode atrapalhar nisso. Corrupção é falta de gestão. Quando se tem uma boa gestão, como se têm em grandes e boas empresas, ninguém consegue roubar. Se a liderança está de olho, se tem planejamento e se tem transparência interna, isso não acontece. Minas tem jeito, depende de nós”

Pré-candidato a governador pelo PSB, ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda

“Temos que dar um choque de simplicidade, com uma administração austera, com redução drástica de secretarias e de cargos públicos. Não podemos governar com amigos, como dizia Hélio Garcia (ex-governador), você faz amigos no governo”

Pré-candidato a governador pelo PSDB, senador Antonio Anastasia

“Nós, do setor privado, sabemos acordar às 6 horas e ir dormir só depois que tudo for feito. No setor público nós precisamos de mais eficiência, menos blá-blá-blá e mais mão na massa. As grandes mudanças sempre foram feitas por pessoas que vieram de fora. Quem vai mudar o que está aí é quem está fora do sistema”

Pré-candidato a governador pelo Partido Novo, Romeu Zema

“Uma minoria assalta o poder e explora os trabalhadores e empresários para privilegiar sua elite, suas coisas. Isso é República? A sensação é de que é um império. Precisamos refundar a República”

Presidenciável do Podemos, senador paranaense Álvaro Dias “Nenhuma norma feita hoje retroage para ferir direitos adquiridos. Vamos denunciar os privilégios? A lei é julgada, e a sua aplicação é feita pela parte que mais recebe privilégios: juízes, procuradores, donos da verdade, chibata moral da nação”

Presidenciável do PDT, ex-governador cearense Ciro Gomes “A solução tem que vir por corte de despesas. Queremos um Brasil sem privilégios para Executivo, Legislativo e Judiciário, porque a conta não fecha”

Presidenciável do Partido Novo, o empresário carioca João Amoêdo

“O Brasil tem jeito. Pode estar fiscalmente truncado, mas eu não me habilitaria a essa aventura se não tivesse jeito”

Presidenciável do PSC e ex-presidente do BNDES, Paulo Rabello (PSC)

FOTO TIÃO MOURÃO/DIVULGAÇÃO: Conexão empresarial reuniu pré-candidatos a governador e a presidente em Tiradentes

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